O mercado de criptoativos no Brasil está vivendo um momento de darwinismo corporativo acelerado. Se até pouco tempo atrás o setor operava sob a máxima do “mova-se rápido e quebre coisas”, o novo mantra para 2025 e 2026 é “mova-se com compliance ou deixe de existir”.
Em um cenário que desafia a lógica econômica tradicional, o setor enfrenta seu maior aperto regulatório da história — liderado por uma ofensiva coordenada entre o Banco Central (BC) e a Receita Federal — ao mesmo tempo em que demonstra um otimismo quase agressivo. Um novo e revelador estudo conduzido pela ABcripto (Associação Brasileira de Criptoeconomia) em parceria com a consultoria global PwC expõe essa dicotomia: enquanto correm contra o relógio para evitar sanções que podem inviabilizar suas operações, 40% das empresas do setor projetam dobrar de tamanho nos próximos meses.
Neste artigo, dissecaremos as camadas desse estudo, analisando o impacto das novas exigências de capital, a corrida pela tokenização de ativos reais (RWA) e o inevitável processo de consolidação que transformará o mapa das fintechs brasileiras.
Otimismo em Tempos de Cólera Regulatória
À primeira vista, os dados parecem contraditórios. Como um setor que admite ter na regulação seu “maior entrave” (citado por 90% dos entrevistados) pode projetar um crescimento tão vigoroso?
A resposta reside na maturidade institucional. O estudo aponta que, para 57% das empresas, a expansão prevista oscila entre 1% e 50%. No entanto, um grupo robusto de 40% das organizações — provavelmente aquelas com maior caixa e infraestrutura tecnológica — espera crescer 100% ou mais.
Esse otimismo não é infundado; é estrutural. O Brasil não é apenas um usuário passivo de cripto; é um dos maiores mercados do mundo em adoção de varejo. O que muda agora é a tese de investimento. As empresas não estão mais apostando apenas na volatilidade do Bitcoin ou na especulação de memecoins. A aposta agora é na infraestrutura.
A Tríade Tecnológica: Cripto, Tokenização e Blockchain
O relatório hierarquiza as prioridades tecnológicas que sustentam esse crescimento:
- Criptomoedas (80%): Continuam sendo a porta de entrada. É o “chamariz” que traz o usuário para o ecossistema.
- Tokenização (70%): Aqui reside a verdadeira revolução silenciosa. A tokenização não é mais um conceito abstrato; é tratada como oportunidade estratégica para eficiência operacional. Estamos falando de transformar recebíveis, precatórios e imóveis em ativos digitais fracionáveis e líquidos.
- Blockchain como Infraestrutura (31%): A tecnologia de registro distribuído deixou de ser o produto final para se tornar o “encanamento” invisível e seguro sobre o qual o sistema financeiro do futuro (incluindo o Drex) será construído.
Um dado fascinante do estudo é a inversão de prioridades futuras. Nos próximos cinco anos, 44% das organizações pretendem priorizar investimentos em Blockchain, superando até mesmo a onipresente Inteligência Artificial (citada por 35%). Isso sinaliza que, no mercado financeiro descentralizado, a confiança e a imutabilidade dos dados valem mais do que a capacidade generativa da IA.
O “Muro” de 10 de Novembro: As Novas Regras do Jogo
Para entender a tensão atual, precisamos olhar para o dia 10 de novembro de 2025. Foi a data em que o Banco Central publicou a normativa que, efetivamente, encerrou a era amadora das criptomoedas no Brasil.
As empresas passaram a ser classificadas formalmente como Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (VASPs). Com o título, vieram as responsabilidades de “gente grande”. A barreira de entrada foi elevada drasticamente através de requisitos de capital mínimo:
- Piso: R$ 10,8 milhões.
- Teto: R$ 37,3 milhões (dependendo da complexidade e risco da atividade exercida, como custódia de terceiros).
Para grandes bancos e corretoras tradicionais, esses valores são triviais. Para as startups e exchanges nativas do setor cripto — muitas das quais operavam com estruturas enxutas e capital de giro volátil — essa exigência é um teste de sobrevivência.
O Perfil das Empresas em Risco
O levantamento da ABcripto/PwC, cujos dados foram coletados até outubro (pré-normativa), desenha o perfil de quem está na linha de tiro:
- Sem Licença: 63% das empresas atuantes no setor financeiro cripto não possuem licença bancária tradicional. Elas operam nas franjas do sistema.
- Faturamento Modesto: 30% das empresas registram receitas anuais de até R$ 5 milhões. Para estas, um aporte de capital de R$ 10 milhões é matematicamente inviável sem investimento externo agressivo.
- Fase de Consolidação: 53% das empresas se autodeclaram “em fase de consolidação”, o que significa que seus processos ainda não são totalmente robustos.
O Abismo do Calendário: A Crise de Prazo
Talvez o ponto mais crítico revelado pelo estudo não seja financeiro, mas temporal. Existe um descompasso brutal entre a velocidade da caneta do regulador e a capacidade de adaptação da iniciativa privada.
O Banco Central estabeleceu que as normas operacionais entram em vigor em 2 de fevereiro de 2026. Após essa data, abre-se uma janela de nove meses para a adaptação final e obtenção da licença.
No entanto, a realidade das empresas é outra:
- 63% estimam precisar de dois a três anos para se regularizar plenamente.
- 4% preveem mais de quatro anos.
- Apenas 11% acreditam conseguir concluir o processo em menos de um ano.
Bernardo Srur, diretor-presidente da ABcripto, já sinalizou a intenção de abrir diálogo para estender esses prazos. O risco é claro: se o Banco Central mantiver o rigor do calendário, poderemos ver um “apagão” de prestadores de serviço, onde dezenas de empresas serão forçadas a encerrar as atividades ou operar na ilegalidade até serem barradas.
“Nenhuma empresa consultada teria condições de atender ao prazo estipulado pelo Banco Central seguindo o ritmo normal de adaptação corporativa.”
O Custo Invisível: Onde a Dor é Maior
A adequação não é apenas sobre ter dinheiro no caixa; é sobre mudar a cultura da empresa. O estudo mapeou as áreas onde o “gap” de conformidade é mais crítico. Não surpreendentemente, são as áreas que exigem burocracia pesada e custos fixos altos:
- Compliance e PLD (Prevenção à Lavagem de Dinheiro): A exigência número um da Receita Federal e do BC. Rastrear a origem dos fundos em blockchain é tecnicamente possível, mas operacionalmente custoso.
- Tributário: A complexidade de tributar operações de permuta cripto-cripto, DeFi (Finanças Descentralizadas) e Staking ainda gera dores de cabeça contábeis.
- Cibersegurança: Com a custódia centralizada exigida pela regulação, as empresas se tornam “potes de mel” para hackers. O investimento em segurança defensiva precisa triplicar.
- Auditoria e Controles Internos: A era das planilhas acabou. Auditorias externas independentes passarão a ser obrigatórias.
O Futuro: A Grande Consolidação (M&A)
O que acontece quando você tem um mercado projetando crescimento de 100% colidindo com uma barreira de capital de R$ 37 milhões e prazos exíguos? Fusões e Aquisições.
O cenário para 2025 e 2026 no Brasil será marcado por uma onda de consolidação.
- Os Compradores: Grandes bancos tradicionais (que querem entrar em cripto com tecnologia pronta), corretoras internacionais gigantes (que têm capital mas precisam de licença local) e as líderes do mercado nacional (os 27% que já faturam acima de R$ 200 milhões).
- Os Vendidos: Startups inovadoras, com excelente tecnologia e base de clientes, mas que não conseguem levantar o capital regulatório a tempo.
Isso transformará o ecossistema brasileiro. Deixaremos de ter um mercado fragmentado com centenas de pequenas exchanges e passaremos a ter um oligopólio de grandes “Crypto-Banks”, altamente regulados, seguros e integrados ao sistema financeiro nacional (PIX e Drex).
A Tokenização como Tábua de Salvação
Para muitas empresas, a salvação pode estar na mudança de foco. Ao invés de serem meras exchanges (corretoras) sujeitas às regras mais duras, muitas podem pivotar para se tornarem “tokenizadoras” de ativos reais, prestando serviços de tecnologia B2B para instituições maiores.
A pesquisa da ABcripto/PwC mostra que 77% das empresas enxergam oportunidades concretas na aplicação de blockchain. Isso sugere um futuro onde o Brasil exportará software e know-how de tokenização, mesmo que o mercado de custódia se concentre em poucos <i>players</i>.
Conclusão: Um Mercado Mais Chato, Porém Mais Rico
Para o entusiasta purista da descentralização, o cenário brasileiro de 2025 pode parecer desanimador: regras rígidas, vigilância estatal e centralização bancária. No entanto, para o investidor e para o empreendedor, este é o momento da virada.
A regulação, embora dolorosa e com prazos draconianos, traz o selo de legitimidade que falta para o “dinheiro grande” entrar. Quando fundos de pensão, tesourarias corporativas e investidores conservadores olharem para o Brasil, não verão mais um “Velho Oeste”, mas sim um mercado com regras claras, proteção jurídica e infraestrutura de ponta.
As empresas que sobreviverem ao filtro regulatório do Banco Central nos próximos 18 meses não serão apenas sobreviventes; elas serão as gigantes da próxima década financeira na América Latina. O crescimento projetado de 100% não é apenas otimismo; é a recompensa reservada para quem conseguir cruzar o deserto da burocracia carregando a tocha da inovação.
Análise baseada nos dados do estudo ABcripto/PwC e reportagens da Forbes Money, atualizados para o contexto regulatório de novembro de 2025.





